Um pouco sobre a psiquiatria e os sonhos

O sonho desde a antiguidade até hoje está relacionado a um misticismo natural da nossa espécie, e existem explicações elaboradas desde muito tempo, de diferentes perspectivas teológicas, filosóficas e científicas.


“O sonho é definido como atividade da alma do homem adormecido, contanto que durma” Aristóteles1


A psiquiatria como um saber humano epistemológico científico, começou a se interessar pelo sonho durante sua própria estruturação como um saber.


O século XIX foi marcado por grandes avanços na elaboração do conhecimento humano, muitos psiquiatras buscaram explicar racionalmente fenômenos que eram tradicionalmente atribuídos a causas místicas ou sobrenaturais, e o sonho foi um tema que fez parte dessas buscas.


Na psiquiatria essa premissa se fazia na medida de uma posição científica, de lastro filosófico, conhecida como a Teoria da Fenomenologia, e a partir da tentativa de compreender e descrever apresentações clínicas do sofrimento psíquico. Essa abordagem hoje chama-se a Teoria da Psicopatologia, que é um esforço clínico para ler e recortar os sinais e sintomas do sofrimento mental. Foi nesse sentido que o sonho começou a ser estudado na psiquiatria.


Um estado psíquico conhecido como “Delirium”(hoje tem significado diferente da época – séc XIX) movimentou embates científicos acalorados, era um conceito que englobava diversas apresentações clínicas, e existia um esforço em diferenciar diferentes apresentações que cursavam com essa “confusão mental”, “alucinações”, “delírios”. Até que ponto esse quadro era consequência de uma disfunção orgânica primária? até que ponto era um estado consequente de uma causa mental primária? O que tinha em comum e as diferenças entre o “delirium” e a “insanidade mental”?


Alfred Maury (1878) foi um médico francês que se debruçou sobre o estudo dos sonhos, referência para muitos que vieram depois, e utilizou como conceito uma palavra que vem do grego “oineiros – (sonho)” articulando o conceito que chamou de: “Onirisme”, significando como “uma forma de atividade mental automática constituída por visões e cenas animadas similares àquelas experimentadas no sonho”.


Desde então estados conhecidos como oniroides viraram alvo de pesquisa clínica. Diversos médicos e pesquisadores importantes, ainda no séc XIX, como por exemplo: Griesinger, Lasègue e Moreau, tentam aproximar a experiência vivida no sonho, com a experiência de certas apresentações patológicas.


Lasègue em afirmava que o “delirium alcoólico” ( hoje Síndrome de Wernicke-Korsakoff) não era um “delirium” como descreviam e um estado patológico semelhante ao sonho. 


Griesinger tentou aproximar a experiência de sofrimento vivida do “delirium febril agudo” como se fosse a experiência do sonho.


Moreau afirmava categoricamente que a “insanidade” era absolutamente idêntica aos estados oníricos. Em que o “delirium” seria uma forma patológica de sonhar.


Entretanto foi dessa busca, para virada do século XX, que o médico S. Freud com o artigo “A interpretação dos sonhos” lançado em 1899(1900), vai dar um grande salto no estudo, com a premissa científica, dos sonhos. É uma obra que marca toda uma geração, e um pilar da então nascente Teoria Psicanalítica. 


Freud traz que o conteúdo do sonhos, ou seja, as imagens oníricas, são plenas de significados, contudo significados individuais, e não de uma forma direta, mas indiretamente por meio de mecanismos inconscientes que conceituou como deslocamento e condensação. Freud ainda vai mais longo, muito mais, e só lendo-o pode-se alcançar sua proposta a fundo.

Esses mecanismos significam que as imagens oníricas vividas no sonho, não significam a imagem em si, mas como se fosse uma metáfora dessas imagens, e a busca freudiana era compreender essa metáfora, uma busca de compreender um certo “fisiologismo psíquico”.

A atividade consciente – vigília está suprimida durante o sono, e isso possibilitava ao “aparelho psíquico”, enquanto no estado fisiológico do sono, representar imagens que consciência não deixava chegar ao pensamento racional no estado de vigília.

Assim chegou-se a conclusões como os sonhos representavam desejos, medos, conflitos, provenientes de cada realidade vivida individualmente e sua vida psíquica. Sua pesquisa descobriu que alguns sonhos tem um sentido muito peculiar, e lembrando, individual. Uma “válvula de escape” para os desejos inconscientes reprimidos. Freud criou o próprio método para fazer essas leituras, que é o método da análise psicanalítica, através das associações livres em terapia.


Desse fio se dará diferentes direções de produções epistemológicas posteriores.

Ao mesmo tempo, durante século XX, com os avanços tecnológicos, a ciência toma uma nova forma. A neurociência cresceu exponencialmente, e em paralelo com os avanços epistemológicos, e o sono foi o grande alvo das pesquisas nesse sentido. Muito foi descoberto sobre a  fisiologia do cérebro, e consequentemente do sono. Os sonhos foram reduzidos a leitura físico-química do cérebro durante o sono. Onde os sonhos não REM são mais lúcidos e propositados, e os sonhos no estado REM, são mais abstratos e surreais. E a interação farmacológica com esses estados.

A neurociência ocupa um lugar importante na psiquiatria contemporânea(como deve ser), e uma leitura mais “psicológica” perdeu espaço(infelizmente). A neurociência está mais concentrada na leitura da fisiologia orgânica do sono e do sonho, ficando a cargo dos analistas a busca de avançar o conhecimento sobre os significados individuais dos conteúdos (imagens) oníricos provenientes do sonho.


“Quando interpretamos o sonho, sempre estamos em cheio no sentido. O que está em questão é a subjetividade do sujeito, nos seus desejos, na sua relação com seu meio, com os outros, com a própria vida.” J. Lacan2


Citações:

1 – Freud (1900) A interpretação dos sonhos: Obras completas volume 4 – S. Freud

2 – O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud – J. Lacan

Outras bibliografias consultadas e recomendadas:

Uma História da Psiquiatria Clínica: a Origem e a História dos Transtornos Psiquiátricos: Transtornos Neuropsiquiátricos (Volume 1) – German E. Berrios

Psiquiatria – Psicologia Geral e Psicopatologia – A. L. Nobre de Melho

Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica – Kaplan e Sadok

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