Como Saber quando procurar um psiquiatra?

Uma questão muito importante, ao mesmo tempo complexa e difícil.

Devemos procurar um profissional em saúde mental quando a própria pessoa ou alguém (familiar, amigos, ou outros) reconhecer que está passando por um sofrimento psíquico.

Conceitos como sofrimento mental/psíquico, transtornos mentais, doenças mentais, são desafiadores e têm consequências sociais importantes. Fazendo com que tenham a necessidade de serem revisitados eventualmente.

Por isso a dificuldade de lançar mão de conceitos generalistas.

Essa dificuldade nos conceitos tem um pilar importante, sofrer (de uma forma geral) faz parte do nosso existir humano, porém há uma tênue linha em que o sofrimento vai além, causando maiores impactos pessoais e/ou sociais, com prejuízos consideráveis para vida.

Vai caber ao profissional utilizar instrumentos (métodos e consensos epistemológicos-científicos atuais) para diferenciar até que ponto esse sofrimento faz parte da dinâmica da vida, ou se esse sofrimento pode ser considerado um transtorno mental.

Atualmente diagnóstico psiquiátrico é dimensional ou categorial, ou seja, todos podemos ter algumas dificuldades maiores no decorrer da vida, porém algumas pessoas terão formas de sofrimentos mais intensas e incapacitantes. Constituídos pelas síndromes clínicas ou por critérios categóricos.

Ao mesmo tempo vivemos em um tempo de muita “patologização” dos processos ordinários da vida. A história da psiquiatria é complexa, e mostrou como os termos diagnósticos podem ser estigmatizantes e excludentes. Fazendo que todos os cuidados com esses termos e temas sejam importantes.

A atividade clínica (anamnese – exame psíquico – exame físico) do médico, ou outros profissionais de saúde, é uma das ferramentas para ajudar a interpretar essa tênue linha do sofrimento. Realizada no caso a caso, dentro de um contexto individual e cultural. o Exame é individual, realizado durante a consulta.

Cada pessoa é diferente, desde sua biologia até os processos mentais, apesar de compartilharmos muito em comum, não somos iguais. Isso é fundamental.

Lembrando que o diagnóstico psiquiátrico é de exclusão, deve ser descartada qualquer outra causas primárias como por exemplo: infecções, alterações hormonais, causas neurológicas, uso de substâncias pontuais causadoras dos sintomas, etc…

Diante do exposto, separei alguns sinais gerais e bem resumidos que podem ajudar a reconhecer quando procurar ajuda. Nem sempre a própria pessoa consegue reconhecer. Muitas vezes a família ou amigos podem ser fundamentais para ajudar a pessoa em sofrimento buscar ajuda.

Mudanças dos hábitos fisiológicos individuais, persistentes, trazendo dificuldades com as demandas da vida

Distúrbios do sono: Insônia, redução ou ausência da necessidade de sono, sonolência excessiva.

Distúrbios do apetite: Fome excessiva, falta total de fome, comer o tempo todo para aliviar mal-estar ou pensamentos, comer e forçar o vômito recorrentemente.

Distúrbios das funções excretoras: perdas urinárias involuntárias, vontade de ir ao banheiro (número 1 e/ou 2) muitas vezes ao dia, constipação recorrente, sensação de falta de ar (“puxo o ar e o ar não vem”), sudorese excessiva. Muito relacionados ao medo e/ou exigências.

Isolamento social

O isolamento social é um sinal importante, principalmente se não faz parte dos traços individuais de personalidade.

Ficar atento aos isolamentos sociais após traumas, como lutos, agressões sofridas, abusos sexuais…

Também isolamentos a partir de conflitos familiares, abandono das atividades cotidianas sem uma causa mais clara, dificuldade de sair de casa, andar sozinho, entrar em locais fechados.

Isolamentos por crença imaginária de estar sofrendo uma perseguição, ou ouvir vozes, pensamentos angustiantes, fobias…

Alterações no pensamento, afeto e vontade

Sensações de mal-estar (angústia/ansiedade) persistentes e incapacitantes. Abuso de substâncias para lidar com mal-estar.

Sentimentos e ideias de tristeza, desesperança, desespero, de menos valia (“sou inútil, não sirvo para nada, um estorvo”), “dor psíquica” – conflitos de ideias morais incapacitantes. Ideias e tentativas de não viver mais.

Perda da vontade de fazer o cotidiano do dia a dia(levantar da cama, comer, tomar banho), de se relacionar com outras pessoas. Perda do prazer em fazer coisas, ou não conseguir suportar o desprazer de fazer coisas.

Ideias de se machucar ou machucar alguém. Se machucar para aliviar esse mal-estar que toma o dia a dia da pessoa.

Dores persistentes e recorrentes, sem causas aparentes.

Ideias “intrusivas” que geram mal-estar importante. Ex: passar por uma ponte, e uma ideia tumultuar os pensamentos “pula, pula, pula”.

Episódios de agitação psicomotora intensa e/ou agressividade

Ficar atento a episódios de agitação, inquietação, não conseguir ficar parado.

Falas aceleradas, falar “coisa com coisa”, mudanças bruscas no comportamento e do humor acompanhados de muita energia, por vezes de ideias de grandeza ou de que está sendo perseguido.

Passagens ao ato, impulsivas, como em episódios de agressividade e tentativas de suicídio, devem ser melhor investigados.

Imagem Ilustrativa – Fonte: Pixabay

Bom! Esses são alguns sinais importantes para procurar ajuda de um profissional de saúde mental.

Lembrando que a saúde mental engloba diferentes profissionais, a abordagem multidisciplinar é indispensável nesse campo. Sendo importante procurar boas referências.

No SUS o acesso se dá através da Rede de Atenção Primária com dispositivos como: Emergência, Clínicas da Família, Ambulatórios, Hospitais e principalmente o Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Em luta por sobrevivência diante dos desmandos políticos.


“É por referência à polaridade dinâmica da vida que se podem chamar de normais determinados tipos ou funções. Se existem normas biológicas, é porque a vida, sendo não apenas submissão ao meio mas também instituição de seu próprio meio, estabelece, por isso mesmo, valores, não apenas no meio, mas também no próprio organismo. É o que chamamos de normatividade biológica. Não é absurdo considerar o estado patológico como normal, na medida em que exprime uma relação com a normatividade da vida. Seria absurdo, porém, considerar esse normal idêntico ao normal fisiológico, pois trata-se de normas diferentes. Não é a ausência de normalidade que constitui o anormal. Não existe absolutamente vida sem normas de vida, e o estado mórbido é sempre uma certa maneira de viver… Portanto, existe medicina, em primeiro lugar, porque os homens se sentem doentes. É apenas em segundo lugar que os homens, pelo fato de existir uma medicina, sabem em que consiste sua doença.” Georges Canguilhem ( O normal e o patológico – 1943)


Notas:

– Na dúvida procure um profissinal em saúde mental.

– A pessoa pode chegar ao psiquiatra por via de encaminhamentos de outros profissionais, pela procura própria, pela família, ou por via institucional.

– O psiquiatra é médico de gente, assim como qualquer outro médico. Ainda existe medo e preconceito, mesmo que venha melhorando ao longo dos anos.

– O post traz sinais de alerta, o sinal isolado não tem significado. Por isso a importância de ter uma avaliação do conjunto dos sinais e sintomas dentro de um contexto clínico.

– Nem sempre o sofrimento mental precisará de tratamento médico.


Referências bibliográficas para elaboração do texto:

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