A Psiquiatria e a Espiritualidade -Religiosidade

Os limites entre a psiquiatria e a religiosidade e espiritualidade é um tema muito interessante, ao mesmo tempo, bem difícil.

Marca gerações de povos, civilizações, possibilidades culturais de estudo, acúmulos de conhecimentos,e muitos outros fenômenos culturais.

Ângulos do saber

Bertrand Russell (1872 – 1970) foi um importante filósofo contemporâneo que ajuda a nos situar no campo dos saberes humanos.

“As concepções de vida que denominamos como “filosóficas” são fruto de dois fatores: primeiro, das concepções religiosas e éticas herdadas; depois, do tipo de investigação que pode ser chamada de “científica”…” Bertrand Russell1

Nessa perspectiva, de amplo sentido desses conceitos, a filosofia ocupa esse espaço de saber e questões entre os saberes:

– Teológicos: em que o conhecimento se faz pela tradição e/ou revelação. Pelo dogma e pela fé.

– Científicos: em que o conhecimento se faz a partir de um conhecimento definido e verificável.

Nem sempre o ser humano foi livre para poder especular e ter um olhar crítico sobre o saber teológico. Mas isso vem mudando nos últimos séculos.

Em diferentes perspectivas teóricas, muitos pensadores se aventuraram a ter um olhar crítico sobre o “fenômeno religioso”, e seu sentido para o ser humano. Há muitos questões e embates até hoje. Passando pela teologia, filosofia, sociologia, antropologia, psicanálise, psicopatologia…

Um consenso importante é a necessidade humana de dar sentido a sua existência.

E na psiquiatria?

Na psiquiatria um marco referencial entre a abordagem teórica teológica-filosófica-científica para o filosófica-científica foi o médico francês Phillipe Pinel (1745 – 1826), a partir de uma abordagem analítica e descritiva(clínica) do soimento mental. Ou seja, as explicações racionais passam a ser orientadas a partir da prática clínica, do que se pode definir e verificar.

E muito se produziu até a atualidade dessa perspectiva filosófico-científica, na psiquiatria, em diferentes áreas para além da psiquiatria…

Na atualidade o psiquiatra brasileiro Paulo Dalgalarrondo faz um percurso incrível no livro: Religião, psicopatologia e saúde mental (2008). Abordando diversos conceitos teóricos envolvidos com esse tema como: religião, religiosidade, espiritualidade, fé, entre outros. Que ainda carecem de um consensos consistentes, mesmo tendo muitos avanços nesses consensos teóricos. 

Articulando esses conceitos com diversos temas, desde o indivíduo ao social. “Do fenômeno sociocultural à experiência psicopatológica”.

Passando desde perspectiva analítica freudiana que nos ensinou muito sobre os conflitos psíquicos individuais provenientes do sentimento religioso, Freud ainda foi muito longe. Foi um tema que C. G. Jung se aprofundou muito também, por mais que em direções diferentes.

Pela perspectiva biológica(neuropsicológica) com pesquisas com Ressonância Magnética Funcional, evidenciando áreas cerebrais ativadas na experiência religiosa.

E também sobre as pesquisas epidemiológicas atuais sobre a saúde física, mental e as relações com as diversas religiões no Brasil.

Para concluir é importante entender que a busca de sentido da existência humana não se resume ao sentimento religioso, a própria busca filosófica e científica se ancoram nessa premissa.

A religiosidade e espiritualidade são sentimentos religiosos importantes para saúde de muitas pessoas.

Os limites entre a psiquiatria e espiritualidade não são objetivos, são subjetivos. As leituras clínicas dependem muito da posição doutrinária e ética de cada psiquiatra. E na psiquiatria ainda tem muito a ser pesquisado e compreendido.

Lembrando que sempre terá um não saber, para quem puder suportar, nem tudo pode ser compreendido e explicado racionalmente.

“Há um certo consenso entre cientistas sociais, filósofos, e psicólogos sociais de que a religião é uma importante instância de significação e ordenação da vida, de seus reveses e sofrimentos. Ela parece ser fundamental naqueles momentos de maior impacto para os indivíduos, como a perda de pessoas próximas, doença grave, incapacitação e morte. Como é elemento constitutivo da subjetividade e doador de significado ao sofrimento, defendo que ela deva ser considerada um objeto privilegiado na interlocução com a saúde e os transtornos mentais.” Paulo Dalgalarrondo2


Notas sobre o texto:

– Alguns autores diferenciam o conceito de espiritualidade e religiosidade. Mas não é um consenso. No post articulei no mesmo sentido para ficar mais simples.

– Esses sentimentos religiosos são de disposições individuais e abrangem qualquer religião. O respeito a diversidade religiosa é fundamental.

– Também pode-se praticar esse sentimento quem não tem religião.

– O termo psicopatologia diz respeito a uma teoria de estudo, não a patologias.

– É uma abordagem geral pela psiquiatria. O tema é complexo e pode ser articulado de diferentes maneiras.

Referências bibliográficas:

1 – Box História da Filosofia Ocidental – Editora: Nova Fronteira – Bertrand Russell – Tradução: Hugo Langone

2 – Religião, Psicopatologia e Saúde Mental – Editora: Artmed – Paulo Dalgallarondo

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